À Sombra da Quaresmeira
Em uma das minhas viagens fui parar em uma daquelas cidades pequenas e calmas, e acabei chegando em uma praça bonita onde os avós colocavam as cadeiras na calçada e conversavam a tarde inteira enquanto as crianças brincavam. Em um canto esquecido da praça, quase melancólico, havia uma enorme quaresmeira repleta de flores roxas. Seus galhos e seu tronco negros e majestosos se erguiam tingidos de flores sobre um tapete de pétalas. Um banco em baixo da árvore parecia ter sido esquecido. Fui até aquela forma rara de beleza e sentei-me no banco, empurrando as pétalas com cuidado com medo de modificar o intacto ambiente. Apanhei um papel e uma caneta e me pus a escrever. Este belo hábito que eu havia adquirido depois que meu último namorado partira meu coração em mil pedaços. Havia sido uma boa forma de me aliviar o peso dos sentimentos. Eis que uma menina de uns 6 anos, de cabelos claros e de vestido do mesmo tom das flores da quaresma sentou-se ao meu lado, me despertando daquele sonhar acordado. “O que fazes tu ?” Perguntou-me ela. “Escrevo, não vês ?” Retruquei. “Que escreves ?” “Um poema.” “Podes mostrá-lo a mim ?” Disse ela. Entreguei-lhe o poema, incerta de que ela soubesse ler, ela o pegou, demorou dois minutos e devolveu-o: “É muito agradável, minha mãe gostaria de ouvi-lo. Por que escreves aqui ?” “Este lugar me inspira” disse eu. “Que outras coisas inspiram-te ?” Perguntou a menina. Lembrei-me de Stefan. Ele me inspirava. Doera vê-lo abraçado com quem dissera ser apenas uma amiga. Eu não contei isso à menina, mas ela pareceu notar, e mais estranho, compreender, pois disse: “Você tem um longo caminho pela frente e nem sempre poderá segui-lo de mãos dadas com alguém.” Aquela menina fascinou-me. “Posso ler este poema para minha mãe ?” Perguntou. “É claro.” Falei duvidosa. Ela começou a ler em voz alta, quando terminou sorriu. “Minha mãe adorou o poema” Falou. Só então notei um leve tom de lilás em sua pele e cabelo. Um detalhe que alguém que não se apega deixaria passar. Ainda me perguntava por quê lera o poema em voz alta. Ela pareceu notar o que eu pensava: “Minha mãe não sabe ler, e já é muito velha para preocupar-se com isso, só se concentra em florescer.” Eu a olhei surpresa, ela parecia falar da árvore. “À propósito, meu nome é Esperança, anote aí para não esquecer.” Me inclinei e escrevi em um canto da folha o nome da planta, pensando que talvez o vilarejo a chamasse assim, Esperança. Mas quando virei-me a menina já não estava mais ali, desaparecera da mesma forma que chegara: misteriosamente.. Procurei-a dentre as crianças que brincavam e até mesmo nos galhos da quaresmeira, então notei uma flor no banco, inteira e delicada, e soube que mesmo quando eu não soubesse, a menina-flor estaria comigo. A árvore sacudiu encharcando-me de pétalas delicadas.